O corvo, parte 1
O corvo, parte 1
Certo dia veio a mim,
um sorrateiro corvo carmesim.
Provoquei-o, então, a um jogo de trocas:
um riso leve por algumas troças.
Para essa ave, baixada do céu,
arrisquei os primeiros floreios no papel:
Cantei das plumas vermelho-chama,
tão belas e de perfeita trama.
Rimei sobre os olhos verde-estelar,
e de seu canto que me lembrava o mar.
Com esses gracejos o fiz sorrir,
e em sua alegria comecei a fluir.
Mas me deixando com as flores no chão,
o corvo voava, sem rumo ou razão.
‘Por que somes?’, quis eu perguntar,
mas o bom alento ele trazia ao voltar.
Nesse vai e vem de pouco ritmo,
o corvo rubro era uma chama,
que apaga e acende, feito riso tímido,
e sutilmente o coração ganha.
Mas sua longa ausência em vales sombrios,
trocou a inspiração por versos vazios.
Tranquilo, seu retorno eu aguardava,
mas a saudade, no fundo, queimava.
Fui vivendo, como sei, assim,
sempre a sonhar com o corvo carmesim.
Até que num veleiro embarquei de repente,
e segui rumo ao sol nascente.
Verdejantes campos e ruínas eu vi,
quem dera se o corvo estivesse por ali...
Mas velejando sigo, com o vento a insinuar:
‘há sempre algo além do mar’.
Se o corvo é feliz em voar mais além,
que voe, pois de sua alegria me fiz refém.
E se ao reencontrá-lo, não mais vermelho for,
ainda reconhecerei meu ausente amor.
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