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O corvo, parte 1

O corvo, parte 1 Certo dia veio a mim, um sorrateiro corvo carmesim. Provoquei-o, então, a um jogo de trocas: um riso leve por algumas troças. Para essa ave, baixada do céu, arrisquei os primeiros floreios no papel: Cantei das plumas vermelho-chama, tão belas e de perfeita trama. Rimei sobre os olhos verde-estelar, e de seu canto que me lembrava o mar. Com esses gracejos o fiz sorrir, e em sua alegria comecei a fluir. Mas me deixando com as flores no chão, o corvo voava, sem rumo ou razão. ‘Por que somes? ’, quis eu perguntar, mas o bom alento ele trazia ao voltar. Nesse vai e vem de pouco ritmo, o corvo rubro era uma chama, que apaga e acende, feito riso tímido, e sutilmente o coração ganha. Mas sua longa ausência em vales sombrios, trocou a inspiração por versos vazios. Tranquilo, seu retorno eu aguardava, mas a saudade, no fundo, queimava. Fui vivendo, como sei, assim, sempre a sonhar com o corvo carmesim. Até que num veleiro embarquei de repente, e segui rumo ao sol nascente. Verde...

O que me falta

Se Amor é Eros, e este é o desejo, se desejo é falta, aquilo que anseio, preciso saber, então, o que me falta. O que é que nesse mundo me exalta? É a gélida brisa que me falta? A que sem cerimônia me afaga, que vem logo ao amanhecer, e de um sopro me faz tremer?   Ou é o pássaro que me falta? Que colorido e distraído me assalta. Pousar em mim não o faria mal… Mas ele foge, tímido, ao menor sinal. Talvez seja a chuva que me falta! Aquela que vem à tarde, esperada, que logo pede café, cravo e canela, deixando um aroma que é só dela. Pode ser a lua, então, que me falta. Aquela que, sobre o mar, reluz bem alta. Seus feixes, junto às ondas, se misturam. E meus sussurros sob a espuma sepultam Brisa, pássaro, chuva e luar, Devaneios que me ajudam a esquivar. Afinal, talvez eu só queira dizer: O que me falta, realmente, é você.

Falsa tentativa

é agora, vamos, me dê um sinal. diga que existimos de fato evitemos um passo em falso nessa falsa tentativa. creio que, não será o fato do Príncipe, nem a chatice do destino, a roubar nossa sorte, nesse receio de acertar pois é, temos dormido acordado, temos passado sufoco, mas, vem, me dê o seu sopro. é minha vez de respirar tá, tudo bem, não precisa de pressa. sei que, no fundo negro desses olhos, há um fundo falso, de falsa alegria que pode ceder. só vamos, nadar contra esse tempo, que agora é tanto, tanto que, já não é nada, só desejo, desejo de viver.

Fim, de tarde

Fim de tarde . De dentro do carro, Ela cerrava os olhos para enxergar além do vidro embaçado pelo frio. Do lado de fora, um suave lençol branco cobria a rua, os carros, postes de luz e o telhado das casas. Mais neve caia, vagarosamente, a cada segundo. Com que velocidade um floco de neve cai? Sussurrou para si mesma. A mente vazia é uma oficina de perguntar inúteis. A sua oficina era produtiva. Mas aquela não seria uma tarde tediosa. Houve um planejamento cuidadoso para que não o fosse. Afinal, seria um encontro! Alguma coisa abaixo da janela a despertou de seus devaneios. Ao abaixar o vidro embaçado, para espionar, foi surpreendida. Quatro patas, pelos, orelhas fofas e olhos fixos: um cão. Mal pode acreditar que o pedinte canino decidiu por incomodar logo a ela, dentre todas as pessoas. O que você quer, coisinha? Poderia ter dito. Obviamente a criatura não respondeu a seus pensamentos, permanecendo a encará-la. O pobre animal tremia, talvez por frio, talvez por fome. Talvez...

Meio assim

acordei assim, meio cansado meio alegre, irritado fui à sacada pescar as nuvens nuvens alegres, dia nublado encarei o céu, meio atrasado meio devagar, parado voei pro alto para ver o sol sol brilhante, mundo opaco esperei a luz, meio cismado meio crédulo, enevoado apoiei-me no forro de prata pobre coitado, já fustigado juntei-me ao sol, meio curado meio tranquilo, trincado fomos à beirada para espiar quase que caio, desajeitado foi assim, meio de lado meio sorriso, rasurado sem entender, quis perguntar é sorrido ou machucado? .

O lado das tartarugas

Aeneas devia ter oito ou nove anos de idade quando o viu pela primeira vez. Havia se perdido dos pais durante uma viagem ao norte e nunca soube como fora parar dentro daquele lago. Lembra-se, porém, da água que parecia congelar seus ossos e de sua respiração que se tornara fantasmagórica como a névoa que o envolvia. Ah, ele também se lembra das tartarugas, é claro. Existiam várias delas, apareciam e sumiam ao seu redor, silenciosas como a mais leve brisa. Eu não senti medo. Não que essa fosse uma situação corriqueira na vida das pessoas, mas de algum modo ele sentia-se em casa, uma casa desconhecida. Mergulhou na gélida água com um único fôlego e ficou pasmo diante da dança que as tartarugas mantinham, e não resistiu a tocar uma. O que aconteceu a seguir ele não entenderia até muito tempo depois, foi como entrar em um sonho sem estar dormindo; Ele viu uma criança. Era menor do que ele e seus cabelos reluziam dourados ao sol. Aeneas nunca a vira na vida, mas sabia que a amava....

O Imortal no fim do tempo

Do calor do sol aos poucos esqueço Só o limite do horizonte me convida a andar Rei ou deus, á ninguém obedeço Nesta terra de ninguém, só resta esperar Mas me lembro do meu erro O qual eu não posso esquecer “Jamais morrer”, foi o desejo Na inocência do meu ser Então todos se foram, e eu fiquei Para viver e morrer no mesmo momento Mas morte de verdade eu jamais terei Aqui, no crepúsculo do tempo