O lado das tartarugas
Aeneas devia ter oito
ou nove anos de idade quando o viu pela primeira vez. Havia se perdido dos pais
durante uma viagem ao norte e nunca soube como fora parar dentro daquele lago. Lembra-se,
porém, da água que parecia congelar seus ossos e de sua respiração que se
tornara fantasmagórica como a névoa que o envolvia. Ah, ele também se lembra
das tartarugas, é claro. Existiam várias delas, apareciam e sumiam ao seu redor,
silenciosas como a mais leve brisa.
Eu
não senti medo.
Não que essa fosse uma
situação corriqueira na vida das pessoas, mas de algum modo ele sentia-se em
casa, uma casa desconhecida. Mergulhou na gélida água com um único fôlego e
ficou pasmo diante da dança que as tartarugas mantinham, e não resistiu a tocar
uma. O que aconteceu a seguir ele não entenderia até muito tempo depois, foi como
entrar em um sonho sem estar dormindo; Ele viu uma criança. Era menor do que
ele e seus cabelos reluziam dourados ao sol. Aeneas nunca a vira na vida, mas
sabia que a amava.
Hoje
são poucas coisas que a mente me permite vislumbrar, a velhice pode ser cruel
para alguns. Estou morrendo, querida, eu sei disso.
A experiência o fez
perder o fôlego e voltar para a superfície. Ele não entendia o que havia
acontecido e não entendia por que se sentiu tão alegre. Voltou a mergulhar mas
não fazia idéia de qual tartaruga ele havia tocado antes, então procurou por
outra. Esta não era uma tarefa árdua, uma vez que havia centenas ali. Mas uma
lhe chamou especial atenção: parecia velha, abatida, possuía um casco rachado e
nadava cada vez mais para o fundo – que aparentemente não possuía fim.
Sua
mãe nunca entendeu por que eu me interessei por ela tão rapidamente, e eu nunca
consegui explicar...
Aeneas hesitou por um
momento, mas sentiu pena do pobre animal e foi até ele para tentar levá-lo para
cima; E então sonhou. Dessa vez estavam diante de um jovem casal sob um velho
salgueiro. Votos eram feitos e Aeneas sentiu lágrimas aquecerem seus olhos, mas
não conseguia decidir se as lagrimas eram de felicidade ou tristeza. Quando
largou o animal percebeu que a tartaruga acabara levando-o para fundo demais e
não conseguia mais ver a superfície. Estava repleto de escuridão.
Eu
havia perdido a estrada, havia perdido os sentidos e havia perdido a coragem.
Quando tornou a ver luz,
esta era a de uma gasta vela ao lado de sua cama. Sua mãe estava sentada ao seu
lado e parecia chorar de surpresa e alegria por ele ter despertado. Aeneas
nunca encontrou o caminho para voltar até o lago, porém a memória nunca se apagou,
pois ela sempre voltava sorrateiramente a ele, como aquelas tartarugas que lhe
pareciam tão familiares.
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