Fim, de tarde
Fim de tarde. De dentro do carro, Ela cerrava os olhos para enxergar além do vidro embaçado pelo frio. Do lado de fora, um suave lençol branco cobria a rua, os carros, postes de luz e o telhado das casas. Mais neve caia, vagarosamente, a cada segundo.
Com que velocidade um floco de neve cai? Sussurrou para si mesma. A mente vazia é uma oficina de perguntar inúteis. A sua oficina era produtiva.
Mas aquela não seria uma tarde tediosa. Houve um planejamento cuidadoso para que não o fosse. Afinal, seria um encontro!
Alguma coisa abaixo da janela a despertou de seus devaneios. Ao abaixar o vidro embaçado, para espionar, foi surpreendida. Quatro patas, pelos, orelhas fofas e olhos fixos: um cão. Mal pode acreditar que o pedinte canino decidiu por incomodar logo a ela, dentre todas as pessoas.
O que você quer, coisinha? Poderia ter dito. Obviamente a criatura não respondeu a seus pensamentos, permanecendo a encará-la. O pobre animal tremia, talvez por frio, talvez por fome. Talvez ambos. Dava até para contar as costelas da criaturinha. Quase sentia pena daquela vida miserável. Quase.
Cansado de esperar por um pouco de boa sorte, o animal se foi, cambaleando em meio a neblina da rua deserta. No passado, Ela não teria hesitado em acabar com o sofrimento do bicho. Uma pequena perfuração acima da garganta é o que bastaria. Sem gritos ou sofrimento, apenas paz. Silêncio.
Bem, ao menos ninguém nunca voltou para reclamar do método, seja cão, gato, coelho ou aquela criança irritante que adorava vasculhar o que não lhe pertencia. Ela detestava que mexessem em suas coisas.
De repente, passos na neve. Um ponto preto no horizonte pálido, desfocado pela neblina. Ela esfregou o vidro do carro e cerrou os olhos para ter certeza… sim, era Ele. Finalmente sua espera valeria a pena. Afinal, foi foram meses de procura até descobrir a pessoa certa. Ele caminhava com vagar em direção ao carro, olhando distraidamente para os lados, como quem não quer parecer ansioso. Quando perto o bastante para ver os olhos dela, sorriu.
Esse se acha esperto, pensou, sorrindo de volta.
Chegou ao lado e se anunciou batendo no vidro da janela. Não demorou a entrar e, sem muitas palavras, os dois começarem a dança. Era a dança de Eros, na qual cada movimento dos lábios era um passo, e cada toque com a ponta dos dedos denunciava uma mudança de rítimo. Naquele breve momento, o inverno havia passado. Para eles.
O vidro se tornava mais embaçado e o mundo branco e tornava cinza, até desaparecer do lado de fora. Só havia para eles. O caçador e a presa, num abraço desesperado.
Assim, como numa caçada, um lâmina perfurar tecido, pelo e carne. Ela sente a mão quente e viscosa. Não precisava olhar para saber que estava vermelha. Finalmente conseguiu o que queria. Os olhos do rapaz se abrem calmamente, e então se arregalam. A moça estava sorrindo, mesmo com a faca enfiada em seu abdome. O rapaz não entendia. Quis perguntar, mas foi interrompido por um beijo vermelho.
Ela, mesmo de olhos fechados, via sua vida se esvaindo enquanto a ponta de seus dedos gelavam. Porém, o coração se aquecia como nunca antes. Finalmente conseguiu. Sentir.
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